
A ferramenta audiovisual não existe apenas para entreter seus espectadores. Como uma manifestação artística, contempla a vida em suas diferentes dimensões, representando-as através de imagens e linguagens que contam histórias e estabelecem sentidos.
Um segmento cinematográfico que se encontra com muitas das expectativas dos jornalistas são os documentários, produções audiovisuais baseadas em histórias reais, que tentam, a partir da construção destas histórias, problematizar questões sociais ou simplesmente relevantes sob algum aspecto.
Os documentários também exercem outras funções que devem ser consideradas, como por exemplo, um trabalho de contra-informação. Não direi nenhuma novidade ao questionar os monopólios midiáticos que por sua vez desenvolvem suas ideologias ancoradas em um “senso comum” que nada mais faz que manter os conceitos neoliberais capitalistas. Sob este contexto, os documentários trabalham com informações, não necessariamente, alternativas as convencionais publicadas pelos meios tradicionais.
Esta contra-informação se faz de extrema importância para a capacitação de seus públicos sobre algumas problemáticas que os meios convencionais não dialogam. Desta maneira exercendo uma atividade de consolidação de alguns aspectos prometidos pela democracia.
Todavia, uma das grandes dificuldades encontradas por documentaristas esta na difusão destes materiais. As leis de exibição no Brasil já são significativamente prejudiciais às produções ficcionais nacionais e se tornam ainda piores quando se trata de documentários, que além de refletirem a vida real, estão dispostos para públicos pouco acostumados a esta linguagem, para não dizer também, pouco interessados.
Validando a importância dos documentários como ferramente de comunicação para desenvolvimento social, celebro nesta matéria um projeto de exibição de cine-documental que tenho acompanhado em terras Mexicanas.
O Ambulante Gira Documentales é um festival de cine-documental realizado pela associação civil não lucrativa, Documental Ambulante A.C., em colaboração com Canana, Cinépolis e o Festival Internacional de Cinema de Morelia. Foi fundada em 2005 por Gael García Bernal, Diego Luna e Pablo Cruz, com a intenção de promover a exibição de documentários por todo México. Durante a Gira se projetam documentários mexicanos e estrangeiros, em 19 complexos de Cinépolis e em mais de 60 sedes paralelas em 16 cidades da República Mexicana, de fevereiro a março de cada ano, todos os eventos gratuitos.
Durante o festival se apresenta um programa com distintos trabalhos que indagam diferentes temas sociais e manifestações culturais que procuram fomentar a participação dos mais vários espectadores. Também se organizam palestras e conferências com a participação de cineastas, profissionais da indústria cinematográfica, acadêmicos e representantes de associações civis. O projeto Ambulante também exibe suas edições em paises como Argentina, Cuba, Noruega, Espanha, Reino Unido, Japão e Tanzânia.
Neste ano, o Ambulante conta com a participação de um documentário brasileiro chamado Favela a Todo Volume, dos diretores Leandro HBL, de Minas Gerais e Wesley Pentz do Mississipi, EUA. Neste trabalho eles mostram o Funk nas favelas do Rio de Janeiro como manifestação cultural e exibem um pouco de seu universo.
Chamo atenção especial para a exibição de um documentário chamado Voces Silenciadas de María del Carmen de Lara. Esta produção mexicana fala sobre a polêmica saída da jornalista Carmen Aristegui da emissora W Radio, tendo sua história usada como pano de fundo para discutir a falta de pluralidade nos meios de comunicação mexicanos. O documentário trata da alarmante perseguição a jornalistas independentes e a aprovação de reformas que dão continuidade ao monopólio dos meios sobre a informação. Voces Silenciadas apresenta testemunhos de jornalistas, escritores e acadêmicos que reconstroem a história dos movimentos civis no México e a luta pela liberdade de expressão. A intenção deste documentário, segundo sua diretora é dar voz a aqueles que brigam para que a mídia seja um espaço democrático de verdade.
Atualmente, o México é o segundo país de maior incidência de assassinatos a jornalistas em todo o mundo e onde muitos estão desaparecidos, perde apenas para o Iraque, país que está em guerra.
A exibição de Voces Silenciadas realizada na Universidade Iberoamericana de Puebla pelo projeto Ambulante, no dia 19 de fevereiro contou com a presença da diretora do documentário, Maria del Carmen, de profissionais da comunicação e em especial a jornalista Ana Lília Pérez, que deu seu relato pessoal em função da perseguição e ameaças que vem sofrendo por parte de alguns governantes por motivo de um artigo que publicou a respeito de Felipe Calderón, atual presidente mexicano, e alguns de seus companheiros de gabinete.
As problemáticas dos monopólios de comunicação devem ser problematizadas com o fim de gerarmos a pluralidade dos discursos e efetivamente exercermos a democracia. Cabe aos atuais, e futuros profissionais da comunicação nos apropriarmos destes temas para podermos trabalhar sobre eles. Existem muitas ferramentas disponíveis que podem e devem ser usadas. O fomento e a difusão de documentários podem ser grandes aliados.
Elis Braz